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Por que o teclado não é em ordem alfabética?

Márcio Silva
Márcio Silva

A grande maioria dos idiomas falados no mundo seguem o padrão de alfabeto na ordem alfabética — A, B, C, D, E, F e assim sucessivamente. Isso simplifica o entendimento das letras na hora de aprender uma nova língua, além de ajudar a decorá-las de um jeito mais fácil.

Acontece que esse conceito não se aplica ao teclado dos computadores, notebooks, smartphones e outros dispositivos. Em vez de seguirem esse layout, todas as letras ficam misturadas, criando assim o já conhecido padrão QWERTY, que foi adotado desde a criação das primeiras máquinas de escrever.


Mas qual foi a ideia por trás desse formato? E só ele explica o fato das teclas do teclado não estarem em ordem alfabética? Por que a indústria persiste nesse padrão? 


Quando tudo começou…

Pode ser que algumas pessoas acreditem que o padrão QWERTY surgiu com a criação dos primeiros teclados modernos. Eu digo “modernos” porque eles só ganharam espaço entre a população comum a partir da década de 1980, no mesmo período em que os computadores pessoais foram introduzidos no mercado, mesmo custando o olho da cara.

As primeiras versões das máquinas de escrever seguiam uma ordem alfabética, mas isso mudou com a criação do padrão QWERTY (Imagem: Nick Fewings/Unsplash)


Porém, a história por trás das teclas embaralhadas começa muito antes no século 19, quando o impressor estadunidense Christopher Latham Sholes (1819-1890) inventou a máquina de escrever, mais precisamente em 1868. Na época, as teclas na máquina tinham uma disposição que seguia a ordem alfabética, o que, a princípio, não parecia ser um problema para quem usava o objeto, em especial os datilógrafos.

O problema era que, ao deixar os botões em ordem alfabética, a digitação ficava rápida demais, aumentando as chances da escrita sair errada e forçando o datilógrafo a começar do zero em uma nova folha de papel. Lembre-se que estamos falando de uma máquina de escrever em papel, e qualquer erro, por menor que fosse, poderia obrigar a pessoa a datilografar tudo novamente.

Além disso, ao digitar muito rapidamente, as barras de metal na máquina de escrever, que por sua vez tinham a imagem com a forma da letra ou caractere, acabavam formando manchas no papel. Isso, inclusive, poderia travar a máquina de escrever, já que as barras, por serem pressionadas quase que ao mesmo tempo, poderiam se enroscar no emaranhado de metal logo abaixo de cada tecla.


Por que o teclado não é em ordem alfabética?

Por causa da digitação rápida e desenfreada provocada pelas teclas em ordem alfabética, Sholes mudou, por conta própria, a posição de algumas letras na máquina de escrever. O objetivo era justamente tornar a digitação mais lenta, diminuindo, ou ao menos minimizando, as chances de erro na hora da datilografia. Também reduzia o risco das barras de metal ficarem presas, evitando que o datilógrafo desenroscasse os fios manualmente.

Sholes organizou as teclas separando os pares de letras mais usados na língua inglesa para diminuir a quantidade de possíveis erros e até travamentos na máquina de escrever, uma vez que a velocidade de digitação era bem menor.

Para tornar a digitação mais lenta e eficaz, Sholes moveu as letras E e I, duas das mais usadas em palavras de língua inglesa, da segunda para a primeira fileira da máquina de escrever. A letra A, que também é bastante comum nas palavras inglesas, continuou na segunda fileira, porém foi colocada em uma posição de menos destaque.

E assim nascia o padrão QWERTY.

QWERTY

O padrão QWERTY é o layout dominante na grande maioria dos teclados, mas não é o único (Imagem: Clint Patterson/Unsplash)

O formato mais comum usado até hoje nos teclados é o padrão QWERTY, que começou lá atrás com a mudança proposta por Sholes. O nome “QWERTY" vem do fato de que essas são as cinco teclas iniciais da primeira fileira das letras do alfabeto. Ou seja, a ordem das letras no teclado nada mais é do que uma cópia do padrão da máquina de escrever.

O layout é inteiramente pensado no idioma inglês. Tanto é que, se você olhar para o seu teclado enquanto lê este artigo, vai notar que algumas palavras da língua inglesa, como “are" e “you”, possuem as teclas sempre próximas umas das outras. O layout é tão eficaz para o idioma que essas e outras palavras podem ser escritas usando apenas uma mão.

No entanto, a disposição das teclas QWERTY se tornou o padrão de praticamente todos os modelos de teclado. E mesmo com a chegada dos teclados de computador — o que inclui componentes com menor chance de erro, comparados aos fios de metal dos antigos datilógrafos —, pessoas que já estavam acostumadas ao layout QWERTY da máquina de escrever talvez não vissem sentido em adotar uma disposição das teclas em ordem alfabética.


ABNT, AZERTY, DVORAK e outros layouts

Claro que nem todo mundo se adapta ou gosta do formato QWERTY, idealizado para a língua inglesa. Ao longo dos anos, foram surgindo novos layouts com teclas em diferentes disposições para atender um determinado público ou idioma, mas que, no geral, permanece a essência do padrão QWERTY.

ABNT e ABNT 2

O padrão ABNT tem como diferenciais as teclas "Ç" e Alt Gr (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia)


Sim, temos um layout de teclado para chamar de nosso. O padrão usado no Brasil segue as normas impostas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Daí vem o nome “ABNT”, que já está em sua segunda versão, a ABNT 2.

Mas espera aí: se o padrão usado no Brasil é o ABNT, por que as teclas iniciais na primeira fileira de letras não são… ABNT?

A resposta é simples: os demais layouts de teclado não propõe mudanças drásticas no QWERTY como o conhecemos, mas sim mudar uma coisa ou outra que são muito específicas para um público ou idioma em particular. No caso do ABNT, as maiores diferenças são a tecla de cedilha (Ç), que não costuma vir em teclados de origem inglesa, e na tecla “Alt Gr”, que fica ao lado direito da barra de espaço e serve para ativar a terceira função de algumas teclas.


AZERTY

Na França, o teclado padrão é o modelo AZERTY, que realoca várias teclas usadas no idioma francês (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia)


AZERTY é o layout de teclado usado na França e outros países que têm a língua francesa como idioma dominante. A Bélgica também faz uso desse modelo, embora tenha criado uma versão belga do formato. No AZERTY, muito do layout QWERTY foi mantido. Contudo, as teclas A, Q, Z, W e M estão em lugares diferentes para facilitar a digitação de palavras francesas.


COLEMAK

O layou COLEMAK não conta com uma tecla dedicada ao Caps Lock, que neste caso é substituída por mais uma tecla de Backspace (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia)


Baseado no modelo DVORAK, o layout COLEMAK foi criado para alfabetos de origem latino-americana. O formato é projetado para tornar a digitação mais confortável e eficiente, deixando as teclas mais usadas para os dedos com mais força, como indicador e médio. Curiosamente, é um dos poucos layouts de teclado que não possui a tecla Caps Lock — no lugar fica uma tecla adicional de Backspace.


DVORAK

Existem algumas variações do layout DVORAK. Esta, por exemplo, é uma dos mais populares nos Estados Unidos (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia)


Apesar de ser uma das alternativas mais comuns ao QWERTY, o padrão DVORAK nunca chegou a ser amplamente adotado pela indústria. Ainda é um teclado voltado para a língua inglesa, mas as teclas são distribuídas por todo o teclado que a digitação aconteça com as duas mãos, principalmente com a esquerda. Também existem versões do DVORAK par uso de uma única mão e um modelo adaptado ao português do Brasil chamado BR-Nativo.


QWERTZ

Por padrão, o layout alemão QWERTZ tem várias teclas com caracteres locais e que substituem as letras comuns (Imagem: Wikimedia Commons/Wikipedia)


Este é o layout de teclado usado em regiões de língua alemã. O nome é bem parecido ao QWERTY, com exceção da última letra, Z, que é mais usada no idioma alemão. Há ainda a inclusão de caracteres locais, como ö, ä, e ü. Além disso, existem layouts baseados no QWERTZ alemão, incluindo os modelos italiano e suíço.


Trocar ou não trocar de layout: eis a questão

É legal ver que foram aparecendo layouts de teclado com novas disposições de letras, cada modelo indicado para um cenário específico. Mas, no final das contas, é isso mesmo: a não ser que você tenha um uso muito direcionado, o melhor é permanecer no bom e velho QWERTY, pois é o padrão que somos acostumados a usar desde o início da nossa entrada no meio digital.

Também é verdade que tudo é questão de costume, podendo levar um tempo para se habituar de um layout para o outro. Porém, obviamente, nada o impede de migrar para um novo layout de teclado.


Fonte: Wikipedia (123)



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Comentários (5)

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Marcelo Mora

14/10/2021 09:42

Valeu, pela curiosidade.

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Nicole Cristina

Nicole Cristina

13/10/2021 22:17

Exceeeleeeente!!! Obrigada por compartilhar conosco, Márcio!

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Bruna Borges

Bruna Borges

13/10/2021 19:48

Interessante, muito legal!

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Álan Fidelis

Álan Fidelis

13/10/2021 19:08

Muito interessante o artigo. Em relação aos notebook e PC não é tão fácil mudar o teclado, mas no smartphone é mais fácil essa mudança para adaptação de um novo layout.

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Leandro Carvalho

Leandro Carvalho

13/10/2021 18:21

Exelente artigo.

Estudante de Front-end JS | C# .NET em formação na área de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

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