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Doze meses como designer e incontáveis aprendizados

Flavio Moura
Flavio Moura

O principal deles: você não é o Lulu Santos


O que dizem é verdade: você pode estudar o quanto for, mas só vai aprender na prática. E a prática é totalmente diferente do que imagina.


Enfim chegamos ao final de 2020 e do meu primeiro ano de atuação como designer. E quando comecei essa jornada foi com uma sede que você nem imagina.


Em dezembro de 2019 eu achava que haveria reconhecimento pelo serviço prestado, um busto em minha homenagem, aplausos e champanhe estourando por onde eu passasse. Ok. Está última parte é exagero. Esperava sidra.


Ao longo desse obnubilado e caótico ano que está prestes a entrar no décimo terceiro mês, eu aprendi uma série de coisas que precisam ser ditas pra turma que tá chegando com brilho nos olhos, sorriso de orelha a orelha e borboletas no estômago.


Brincadeiras à parte, admitindo minha ignorância da técnica, da teoria e da prática da UX per se (coisas básicas que se resolvem com leitura e experimentação; este mais que aquele), percebi também que há um gap enorme entre as expectativas e a realidade, especialmente dos juniores e das aves migratórias que estão cruzando esses “mares nunca dantes navegados”.


Então pega a bolinha da expectativa e baixa um bocado, porque vai começar uma surra de cinto (e com a fivela).

1. UX não é (só) sobre o usuário


Se você ainda não sabe, design é, acima de tudo e antes de mais nada, negócio.


Aquilo que você descobriu no discovery, na survey, na quanti, na quali, no focus group, em bate-papo no café é importantíssimo. Sim, é. Mas não se iluda: os achados não vão valer muita coisa se você não souber o que fazer com eles.


Ou melhor, os achados não vão valer muita coisa se você não souber como alinhar as necessidades dos usuários os objetivos de negócio (de mercado). Você sabe do que tô falando, né? Exatamente!


Tô falando daquele famigerado diagrama de Venn que você viu nos bootcamps e palestras que assistiu por aí e achou que fosse uma mera representação ilustrativa de uma teoria que você é obrigado a ver e nunca mais ia precisar lembrar. Tipo Bhaskara, mas nem é.

Diagrama de Venn com os grupos: Negócios, Tecnologia e Necessidades dos usuários. Na intersecção dos três: Novos Produtos.


2. Você terá muita sorte se encontrar um stakeholder que se importe com as necessidades dos usuários


Se você ainda não sabe, design é, acima de tudo e antes de mais nada, negócio (e não; isto não é um copia/cola que esqueci de editar).


Provavelmente, quando você começar a trabalhar no seu primeiro projeto de UX você vai estar com um brilho nos olhos, sorriso de orelha a orelha e borboletas no estômago. E esse brilho nos olhos vai ser de lágrimas, o sorriso vai ser amarelo e as borboletas serão refluxo (azia ou gastrite).


Eu já disse isso em outras oportunidades e vou repetir: o UX designer não é um baluarte dos desejos dos usuários, mas um materializador do “eu finjo que me importo e você finge que acredita”.


O designer da UX é um merchant, que oferece o mínimo plausível pelo máximo possível.


Users needs vs. stakeholders ideas. Image credit: Anton Nikolov


3. O Designer é só mais uma peça da engrenagem


O papel do designer, normalmente, é melhorar algo para alguém que, na cabeça de outrem, não precisa melhorar.


Sabe aquela história que em time que está ganhando não se mexe? Pois é. Boa parte das empresas ainda foca nos outputs, com métricas voltadas às entregas, e não nos outcomes, ignorando os benefícios que podem proporcionar, a satisfação que podem gerar e o retorno que podem ter dos usuários.


Porém, se você não souber como traduzir seu trabalho em números (o tal do ROI, ou retorno sobre investimento), você vai ser um parafuso solto, que só serve pra fazer barulho.


Quer fazer design para UX? Que proporcionar satisfação pro cliente/ usuário? Ótimo. Pois tenha disposição para estudar administração, marketing, gestão, pessoas, logística, supply chain; tenha disposição para aprender um novo idioma: o idioma dos negócios, pois essa é a língua falada pelos seus gestores, pelos gestores dos seus gestores e por quem vai contratar você para seu próximo emprego.


Imagem do filme Tempos Modernos, em que Charles Chaplin está entre engrenagens, segurando ferramentas.

Charles Chaplin em Tempos Modernos


4. Testes com usuários é um luxo que você precisa saber vender


Se até hoje não houve testes, você acha que vai ter teste porque você disse que precisa?


Uma boa solução pra isso é mostrar que os testes significam economia de tempo e de dinheiro — “Dinherô” (MOREIRA, 1985).


Um teste feito no início do processo, preferencialmente antes da primeira linha de código ser escrita, com protótipos em baixa (ou baixíssima), no papel ou no Marvelapp, servirá para, pelo menos, duas coisas:

  1. Por à prova uma solução e buscar novos insights para a continuação do projeto;
  2. Mostrar ao stakeholder que uma solução que ele sugeriu pode dar errado e você mostrar pra ele que seguir por aquele rumo pode ser muito caro.


Com os testes você estará se resguardando de decisões que podem se tornar catástrofes ou se preparando para resultados surpreendentes.


De um jeito ou de outro, você terá mais abertura para implementar uma nova cultura (ou, no mínimo, um novo costume) no processo de desenvolvimento de soluções.


Quatro lápis amarelos. O primeiro traz texto “Too cool to do drugs”. Os demais vão diminuindo e mudando o sentido da frase.

https://www.boredpanda.com/poor-design-decisions-fails/


5. Seu valor só será percebido depois da entrega do projeto (e até lá você vai ser perseguido)


Quem você pensa que é pra atrapalhar o começo do desenvolvimento?


Se a empresa em que você trabalha não tem cultura de design, não pesquisa, não testa, não avalia, não isso e não aquilo, é bem provável que sua primeira empreitada seja conturbada. Você vai precisar ser forte e se impor.


Até você chegar na equipe, as coisas eram assim:


— Fulano pediu isso, isso e aquilo

— Vamos fazer isso e aquilo. Isso deixa pra próxima versão


Dois dias depois

— Cadê? Aquilo foi feito?

— Não. Fiz isso e isso

— Ok. Aquilo fica pra ooooutra versão.


Só que se a equipe tivesse “perdido” oito ou 16 horas em alinhamento com o cliente, perceberia que aquilo era mais importante pro cliente, mais rápido pra desenvolver e mais barato pra empresa.


Seu papel, novato, é escancarar as portas e expor isso pra todo mundo. Os devs serão seus aliados nessa. Bata no peito e diga “xá comigo!” e vai!


Seja honesto e seja claro, mas entregue valor. Diga o seguinte: “seu problema é estar acostumado a andar de carro velho e eu tô te oferecendo um carro zero; não vai dar oficina e, no fim das contas, vai sair mais barato”.


A refação é o que há de mais caro no desenvolvimento de produtos e sistemas.

6. Curiosidade mata o gato, não o designer


Converse muito. Pergunte muito. Mas lembre-se: você tem dois ouvidos e uma boca.


É essencial saber o que está acontecendo no amplo espectro da coisa. Conhecer projetos, objetivos estratégicos, indicadores de áreas, metas e expectativas. Ouça intenções, descubra posicionamentos, debata possibilidades. Saiba o que é e o que não é importante. Aprenda. Aprenda muito.


Fique perto das pessoas importantes do processo. Traga outras pra perto de você. Cole nos PO e nos PM. Seja parte da solução.


Haverá desafetos. Você apontará culpados, mas você precisa de um time bom para ser bom. Ninguém é perfeito, nem você. Principalmente você.


Leia muito. Veja vídeos. Procure mentores. Exponha seus pensamentos. Reconheça seus erros e comemore suas vitórias. Sim, cada entrega é uma vitória.


Animação de um gato preto lixando as unhas da pata dianteira, com olhar de desdém.

Imagem da internet


7. Frameworks são ótimos guias, mas você precisará do seu mapa


Entenda o todo e pavimente seu caminho. Sua estrada não é a mesma que levou outras pessoas até onde elas estão.


O que a gente aprende nos bootcamps é um ótimo guia, mas não é uma lei. E é até melhor que não seja, pois o design precisa ser livre.


Não se obrigue a seguir o passo a passo que alguém ensinou em 36 horas de curso. Você é capaz de pensar numa saída que melhor se adequa à sua realidade. Se não é, volte pra academia e estude mais.


Compreenda que o conhecimento é uma porta e a reflexão é a chave que a abre um mundo de possibilidades.


Conheça as regras e quebre-as. Seja ousado. Seja forte. Seja rebelde.

8. Eu tenho certeza que seu nome não é Lulu Santos


Guardei o principal pro final (e você nem lembrava mais disso).


Talvez o Lulu Santos seja o último romântico. Mas você não deve ser o último romântico do UX Design. Pare de romantizar e vá dar a cara a tapa; vai fazer negócios e entregar valor.


Cantor Lulu Santos olhando para cima, como se lesse o texto acima da imagem.

Foto da internet
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Comentários (1)

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Call Seven

Call Seven

07/06/2021 23:16

Excelente! Faltava abandonar a velha escola...

None

Brasil